Ficha 02 · Tabuleiro
Checkers, de Optime Software
Há aplicações que querem ser uma plataforma e aplicações que querem ser um tabuleiro. Esta é claramente a segunda. Abre num ecrã de madeira com quatro botões, pergunta se se joga sozinho ou a dois e, dada a resposta, sai da frente.
Na Google Play está em 4,8, o mesmo valor da aplicação de xadrez desta página — o que diz pouco sobre ambição e muito sobre expectativa cumprida.
Um tabuleiro sem cerimónia
O menu inteiro cabe num ecrã: um jogador, dois jogadores, mais jogos, opções. Não há registo, não há conta, não há ecrã de boas-vindas. Em opções escolhe-se o nível do adversário artificial e pouco mais.
O tabuleiro é desenhado como um tabuleiro: madeira, discos com relevo, uma sombra curta por baixo de cada peça. Por cima ficam dois botões, voltar e anular; por baixo, o marcador com os nomes dos dois lados. É tudo. Quem vem de aplicações cheias de separadores estranha o silêncio nos primeiros dois minutos e agradece-o ao terceiro.

Regras anglo-americanas, e isso muda o jogo
Convém saber isto antes de instalar: a aplicação segue a variante inglesa, jogada em tabuleiro de oito por oito, com as peças simples a capturar apenas para a frente e a dama a deslocar-se uma casa de cada vez. Quem aprendeu damas em Portugal está habituado à dama de longo alcance, que percorre a diagonal inteira, e à captura para trás. São duas diferenças que viram do avesso a intuição posicional.
Não é defeito: é a variante que a aplicação escolheu e cumpre com rigor. É, isso sim, a primeira coisa a confirmar numa partida contra o computador, antes de se concluir precipitadamente que o motor joga mal.
Duas pessoas, um telemóvel
O modo para dois é a razão pela qual esta aplicação sobrevive a tantas alternativas mais bonitas. O aparelho fica em cima da mesa, cada pessoa joga a sua vez e o marcador vai contando as partidas da tarde. Não é preciso rede, não é preciso uma segunda conta, não é preciso combinar horários.
Numa viagem de comboio com uma criança ao lado funciona melhor do que qualquer sala em linha, e a ausência de cronómetro faz com que ninguém se sinta apressado a jogar.

O que falta
Falta análise: perde-se uma partida e não há maneira de perceber onde. Falta um histórico que vá além do marcador da sessão em curso. Faltam adversários humanos à distância, que aqui simplesmente não existem. E a resolução dos ecrãs denuncia a idade da aplicação — em telemóveis recentes, a madeira e as peças aparecem visivelmente suavizadas.
O nível máximo do adversário artificial também não chega para quem joga damas a sério: ao fim de algumas dezenas de partidas, o padrão de resposta começa a repetir-se.
Veredicto
Uma aplicação honesta, que faz uma coisa e a faz sem ruído. Vale pelo modo a dois no mesmo aparelho e pela ausência total de fricção. Não vale para quem quer evoluir, porque não existe aqui nenhum mecanismo de estudo — para isso, o caminho é o tabuleiro do lado.
Pontos fortes e pontos fracos
A favor
- Arranca direto no tabuleiro: quatro botões e nenhum registo
- Modo para duas pessoas no mesmo telemóvel, sem rede
- Funciona por completo fora de linha
Contra
- Variante inglesa, diferente das damas que se jogam em Portugal
- Sem análise, sem histórico e sem adversários à distância
- Grafismo datado em ecrãs recentes
Classificações
Um tabuleiro de bolso para jogar a dois numa mesa de café. Quem procurar mais do que isso vai encontrar um vazio logo na segunda semana.